Clube da Luta (1999)

“Cada palavra que você lê disso sem sentido outro segundo de sua vida que você perde. A sua vida é tão vazia que você não consegue nem pensar em um outro jeito de gastar seu tempo? Você lê tudo que deveria ler? Você pensa exatamente tudo que te mandam pensar? Compra o que você deveria comprar? Saia do seu apartamento. Encontre uma pessoa do sexo oposto. Pare com a compra e a masturbação excessiva. Peça demissão. Comece uma luta. Prove que você está vivo. Se você não for atrás da sua humanidade, você vira uma estatística” (Tyler Durden, Clube da Luta)

Clube da Luta (Fight Club) ou Clube de Combate é um filme norte-americano de 1999 dirigido por David Fincher. É baseado em romance homônimo de Chuck Palahniuk, publicado em 1996. O filme é protagonizado por Brad Pitt. Edward Norton e Helena Bonham Carter. Norton representa o protagonista anônimo, um “homem comum” que está descontente com o seu trabalho de classe média na sociedade americana. Ele forma um “clube de combate” com o vendedor de sabonetes Tyler Durden, representado por Brad Pitt, e se envolve com uma mulher dissoluta, Marla Singer, representada por Helena Bonham Carter.

Os direitos do romance de Palahniuk foram adquiridos pela produtora da 20th Century Fox Laura Ziskin, que contratou Jim Uhls para escrever a adaptação do filme. Fincher foi um de quatro diretores considerados; foi eventualmente contratado devido ao seu entusiasmo pelo filme. Fincher desenvolveu o roteiro com Uhls e procurou conselhos de escrita do elenco de outros na indústria cinematográfica. O diretor e o elenco o compararam aos filmes Rebel Without a Cause e The Graduate. A intenção de Fincher com a violência de Fight Club foi a de servir como metáfora ao conflito entre uma geração de pessoas jovens e o sistema de valores da publicidade. O realizador copiou o tom homoerótico do romance de Palahniuk para manter a audiência desconfortável e desviar a atenção da surpresa do final do enredo.

Executivos do estúdio de cinema não gostaram do filme, e reestruturaram a campanha de marketing intencionada por Fincher para reduzir as perdas antecipadas. Fight Club não atingiu as expectativas do estúdio nas bilheteiras, e recebeu reações polarizadas dos críticos. Foi citado como um dos filmes mais controversos e falados de 1999. O jornal The Guardian viu-o como um prenúncio de mudança da vida política americana, e descreveu o seu estilo visual como inovador. O filme tornou-se mais tarde um sucesso comercial com o lançamento do DVD, que estabeleceu Fight Club como um filme cult.

Enredo do filme Clube da Luta

O narrador (Edward Norton) é um empregado de uma companhia de seguros, e sofre de insônia. O médico recusa-se a dar-lhe medicação e aconselha-o a visitar um grupo de apoio para testemunhar sofrimentos mais graves. O narrador assiste às sessões de um grupo de apoio para vítimas de câncer testicular e, fazendo-se passar por vítima de câncer, encontra uma libertação emocional que alivia a sua insônia. Ele torna-se viciado em ir a grupos de apoio e em fingir ser uma vítima, mas a presença de outro impostor, Marla Singer (Helena Bonham Carter), perturba-o, e então ele negocia com ela para evitar o encontro com os mesmos grupos.

Depois de voar para casa após uma viagem de negócios, o narrador encontra o seu apartamento destruído por uma explosão. Ele liga a Tyler Durden (Brad Pitt), um vendedor de sabão que conheceu no voo, e eles encontram-se num bar. Uma conversa sobre consumismo acaba com Tyler a convidar o narrador para ficar em sua casa e, depois disso, ele pede ao narrador para lhe dar um soco. Os dois envolvem-se numa luta fora do bar, com o narrador, posteriormente, a mudar-se para a casa em ruínas de Tyler. Eles têm outras lutas fora do bar, e estas atraem uma multidão de homens. Os combates mudam-se para o porão do bar, onde os homens formam um clube de combate.

Marla tem uma overdose de pílulas e telefona ao narrador para ele a ajudar. E ele ignora-a, mas Tyler responde à chamada e salva-a. Tyler e Marla envolvem-se sexualmente, e Tyler avisa para o narrador nunca falar com Marla sobre ele. Mais clubes da luta formam-se em todo o país, e eles tornam-se numa organização anti-materialista e anti-capitalista denominada “Projeto Mayhem”, sob a liderança de Tyler. O narrador queixa-se a Tyler querendo estar mais envolvido na organização, mas Tyler desaparece repentinamente. Quando um membro do Projeto Mayhem morre, o narrador tenta encerrar o projeto, e segue pistas das viagens pelo país que Tyler fez para localizá-lo. Numa cidade, um membro do projecto cumprimenta o narrador como Tyler Durden. O narrador chama Marla do seu quarto de hotel e descobre que Marla também acha que ele é Tyler. De repente, ele vê Tyler Durden em seu quarto, e Tyler explica que eles são personalidades dissociadas dentro do mesmo corpo. Tyler controla o corpo do narrador quando o narrador está a dormir.

O narrador desmaia depois da conversa. Quando acorda, descobre pelos registos do seu telefone que Tyler fez chamadas enquanto ele estava “desmaiado”. Ele descobre os planos de Tyler para apagar a dívida com a destruição de edifícios que contêm registos de empresas de cartão de crédito. O narrador tenta entrar em contato com a polícia, mas descobre que os polícias fazem parte do projeto. Ele tenta desarmar os explosivos em um dos prédios, mas Tyler subjuga-o e muda-se para um prédio seguro para assistir à destruição. O narrador, mantido por Tyler sob a mira de uma arma, percebe que uma vez que partilha o mesmo corpo com Tyler, ele é que está na verdade a segurar a arma. Ele dispara para dentro da sua boca, acertando através do rosto, sem se matar. Tyler cai com um ferimento de saída para a parte traseira de sua cabeça, e o narrador deixa de o projetar mentalmente. Depois disso, os membros do Projeto Mayhem trazem a Marla que entretanto tinha sido raptada a ele, acreditando ser ele Tyler, e deixam-nos sozinhos. Os explosivos detonam, desmoronando os edifícios, e o narrador e Marla assistem à cena, de mãos dadas.

Análise de Clube da Luta

“Somos uma geração sem peso na história. Sem propósito ou lugar. Nós não temos uma Guerra Mundial. Nós não temos uma Grande Depressão. Nossa Guerra é a espiritual. Nossa Depressão, são nossas vidas. Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seriamos milionários, estrelas do cinema ou astros do rock. Mas não somos.” – Tyler Durden.

O filme começa nos apresentando o personagem interpretado por Edward Norton, um homem que trabalha em um escritório, com uma vida totalmente voltada para o trabalho que detesta, mas que não larga por ser o meio através do qual consegue sustentar sua necessidade de consumir, mesmo as coisas que sejam mais inúteis.

O personagem vivido no filme pelo ator Edward Norton. Sei que ele não é apenas um, mas dois. Seu ego por vezes está a serviço do sujeito do inconsciente denominado Tyler Durden. Em outros momentos, esse mesmo ego serve a um segundo sujeito que nunca recebe um nome. Até quase o final, o herói desnomeado desconhece sua dupla realidade. Presume estar diante de um indivíduo inteiramente separado. Quando descobre a verdade, não fica nada contente.

Começando pelo óbvio, posso dizer que sua convicção de estar interagindo com um segundo homem – com quem trava amizade e parceria – está em desacordo com a realidade. O filme nos mostra eventualmente que na verdade ele estava conversando sozinho, agredindo a si mesmo e satisfazendo-se sexualmente sua desnorteada amiga. Portanto, tal discrepância permitiria identificar o fenômeno do delírio. Esse delírio é reconhecido como tal porque a metáfora existente no caso possui seu agente no Real. Para o personagem sem nome, a presença de Tyler Durden na sua frente é tão real quanto o chão sob seus pés. Sua metáfora não é propriamente louca, apesar de ser delirante. Não é imediatamente distinguível de um comportamento neurótico “normal”. Isso fica evidente quando o personagem empreende uma jornada em busca de seu “outro” e todos com quem se depara o reconhecem como Tyler, o que significa que nunca o trataram como louco, quando muito como um visionário.

Mas para fins de exploração, posso assumir como ponto de partida que o personagem principal evidentemente possui uma facilidade de constituir o seu delírio.

De fato, pode-se dizer que o delírio manifesto na forma da presença de Tyler no Real do sujeito é uma resposta defensiva a circunstâncias desestruturantes que o personagem estava vivendo. Insônia prolongada, vazio existencial, estresse. A solução que ele encontrara foi frequentar grupos de anônimos onde ele podia se defrontar com o vívido sofrimento alheio e chorar por isso (talvez realizando indiretamente um luto que não conseguia realizar por si?). Mas este equilibrado estado das coisas foi perturbado pela introdução de Marla Singer em sua vida.

Diferentemente dos frequentadores dos grupos, que ele sabia que eram diferentes dele por vivenciarem problemas reais graves, Marla Singer era como ele. Era como ele, partilhava de sua estratégia e frequentava os mesmos espaços.

Tal confronto com o outro que era como ele foi insuportável. “A sua mentira refletia a minha mentira.” E então ele não conseguia mais chorar e, portanto, não conseguia mais dormir. Foi então que ele viu-se obrigado a confrontar diretamente Marta, separar, dividir os dois física e temporalmente. Poderia isso ter provocado uma cisão psíquica? O que é certo é que é a partir desse ponto que Tyler Durden introduz-se em sua vida.

Tyler Durden é exatamente a representação física do anseio que sentimos de romper com amarras às vezes, sejam elas nossos empregos, nossa vida particular, nosso jeito de ser, enfim qualquer coisa que seja um grilhão para os nossos sentimentos maiores, para o que almejamos em nosso intimo, mas que frequentemente abandonamos seja por comodismo, medo ou por pressões externas (convenções sociais).

“Clube da Luta” suscita tantos questionamentos que é impossível assisti-lo sem que balancemos as estruturas de nossos conceitos mais enraizados e que nossas reflexões, como animais ariscos, queiram quebrar as grades de nossas percepções alcançando níveis cada vez mais profundos.

A violência em “Clube da Luta”, apesar do que as pessoas de análise mais rasa possam considerar, não está em suas cenas de lutas com socos, chutes, hematomas e muito sangue sendo cuspido. A violência das lutas é somente a ribalta da verdadeira violência que ocorre atrás das cortinas. Os socos e chutes são símbolos usados para manifestar visualmente o ataque à civilização que quer transformar nossos sonhos em lixos que podem ser comprados à preços populares e empregos que escravizam nossas almas. Este filme nos convida a também pensarmos: será que sou um escravo que entregou as rédeas da minha vida para alguém que não liga a mínima para quem eu sou, o que é importante para mim e quais são os meus sonhos? Será mesmo que devo ficar nesse trabalho que me paga um salário, mas que sempre me deixa com um vazio no coração e vontade de dormir pelo resto da vida? Pessoal, vamos criar coragem e fazermos nossa própria história! Não vamos ser unicamente mais um bando de homens e mulheres que passaram pela vida como autômatos!

“Você abre a porta e entra
Está dentro do seu coração
Imagine que sua dor é uma bola de neve que vai curar você
Esta é sua vida
É a última gota pra você
Melhor do que isso não pode ficar
Esta é sua vida
Que acaba um minuto por vez
Isto não é um seminário
Nem um retiro de fim de semana
De onde você está não pode imaginar como será o fundo
Somente após uma desgraça conseguirá despertar
Somente depois de perder tudo, poderá fazer o que quiser
Nada é estático
Tudo é movimento
E tudo esta desmoronando
Esta é sua vida
Melhor do que isso não pode ficar
Esta é sua vida
E ela acaba um minuto por vez
Você não é um ser bonito e admirável
Você é igual à decadência refletida em tudo
Todos fazendo parte da mesma podridão
Somos o único lixo que canta e dança no mundo
Você não é sua conta bancária
Nem as roupas que usa
Você não é o conteúdo de sua carteira
Você não é seu câncer de intestino
Você não é o carro que dirige
Você não é suas malditas calças
Você precisa desistir
Você precisa saber que vai morrer um dia
Antes disso você é um inútil
Será que serei completo?
Será que nunca ficarei contente?
Será que não vou me libertar de suas regras rígidas?
Será que não vou me libertar de sua arte inteligente?
Será que não vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo?
Digo: você precisa desistir
Digo: evolua mesmo se você desmoronar por dentro
Esta é sua vida
Melhor do isso não pode ficar
Esta é sua vida
e ela acaba um minuto por vez
Você precisa desistir
Estou avisando que terá sua chance”

(Tyler Durden; Clube da Luta)

Este site foi criado por Luís Eduardo Alló (fundador e editor), bacharel em Direito, mineiro de Muriaé – MG e que adora trabalhar na web.


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