Seven (1995)

Seven (Se7en) Sete pecados mortais – é um filme estadunidense, lançado em setembro de 1995, estrelado por Brad Pitt e Morgan Freeman e um dos mais importantes da filmografia do seu diretor David Fincher.

Sinopse de Seven

O filme conta a história de dois policias – o jovem e impetuoso David Mills (Brad Pitt), que passou cinco anos na divisão de homicídios, e o maduro, culto e prestes a reformar-se William “Smiley” Somerset (Morgan Freeman) – que são encarregados de uma perigosa e intrigante investigação: um serial killer que baseia os seus assassinatos nos sete pecados capitais.

Em uma cidade grande, chuvosa não identificada, Somerset (Morgan Freeman), um policial veterano, próximo à aposentadoria, recebe a notícia que terá um parceiro novo, Mills (Brad Pitt), policial jovem em começo de carreira que especificamente pediu sua transferência para lá.

Investigando o terrível assassino de um homem absurdamente obeso, os parceiros se separam, com Somerset encarregado desse caso e Mills de outro, envolvendo um advogado morto em circunstâncias também terríveis, com a palavra “avareza” escrita no carpete do escritório. Não demora para Somerset fazer a ligação entre os crimes e perceber que eles estão diante de um serial killer sádico e extremamente disciplinado que comete seus assassinatos de acordo com os Sete Pecados Capitais.

Por boa parte da projeção, o roteiro de Andrew Kevin Walker (que viria a escrever 8mm e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) trabalha Seven como um police procedural inteligente, mas substancialmente comum. Temos as tensões entre o cuidadoso e silencioso policial veterano e o afobado e falastrão policial novato e todo o procedimento investigativo que os leva a caçar John Doe, como o assassino se chama. Mas essa é só a superfície. Seven é muito mais do que apenas uma história de policiais investigando crimes.

Seven é, primeiramente, uma experiência sensorial. Mas não uma que deixará o espectador deslumbrado pela presença de cores e planos lindos. Muito ao contrário, o filme vai lenta, mas certeiramente, esmagando o espectador debaixo de um astral pesado, lúgubre, triste e, sim, desesperador. Isso é visto, logo de início, por meio do diálogo desesperançoso de Somerset com seus colegas e, logo em seguida, com Mills. Ele é seco, direto, sem floreios de qualquer natureza. Talvez até lhe falte traquejo social ou, mais provavelmente, ele o tenha perdido ao longo de anos de profissão. E toda sua carga negativa, seu olhar pessimista sobre a humanidade é despejada, como um caminhão de esterco, sobre a cabeça de Mills, que simplesmente não entende, em razão de sua inocência, o que está acontecendo. Assim, o roteiro manobra o batido conceito de “dupla de policiais diferentes que se odeiam, mas se amam” de maneira a abordar, com clareza, dois tipos de olhar sobre o Homem, esse com letra maiúscula mesmo.

E Fincher explora isso ao máximo, ecoando os diálogos pesados com toda uma atmosfera carregada. Ele emprega tons extremamente escuros, com luzes que mal iluminam e que, quando o fazem, só mostram horrores. Sua paleta de cores é basicamente o sépia cercado de tons amarronzados, sem dar muita chance a qualquer coloração mais forte que nos indique algum tipo de esperança. O máximo que vemos é o facho de luz das lanternas iluminando mal e porcamente os ambientes.

Cada set de filmagem tem suas próprias e marcantes características – a delegacia, o restaurante, os locais dos assassinatos, o apartamento de Somerset, a casa de Mills e de sua esposa Tracy (Gwyneth Paltrow) que treme junto com o metrô – mas todos eles transmitem a mesma coisa, ou seja, um finalismo e uma sensação de beco sem saída apavorantes. Somerset sabe aonde vive e que tipo de monstro está enfrentando. Mills não faz ideia do que lhe espera. Mills e, por vezes, Tracy são nossas representações no universo do filme, somos nós entrando de peito aberto e levando pancada atrás de pancada, até termos nossas ilusões despedaçadas pela banalidade de tudo ao nosso redor.

E a chuva é outro elemento massacrante. Chove o tempo todo nessa cidade que pode ser a nossa cidade. Já que estamos em uma obra cujo antagonista usa os Sete Pecados Capitais como inspiração para seus crimes, então a chuva talvez seja a tentativa de limpeza, de purificação que, porém, nunca vem. Pode ser também a força divina querendo inundar o mundo, acabando com aqueles que tenham se desviado do caminho da luz. Mas a chuva cai, cai e cai e a sujeira só aumenta. Não há saída.

Tracy é o único elemento de hesitante alegria na fita. Ela, apesar de miserável por estar em uma cidade de que não gosta, em um apartamento que sacoleja a cada cinco minutos, ama seu marido e faz de tudo para agradá-lo, como, também, seu parceiro Somerset. Quando Tracy, sempre de roupas claras, para nos passar justamente essa leveza que nós sabemos que não resistirá ao teste do tempo, convida Somerset para um café-da-manhã e o trata como seu único amigo, confessando algo que nem a seu marido havia contado, nós não temos como não sentir um peso em nossos corações. Ela também não tem saída, está sozinha em um mar – ou dilúvio – de sujeira, de descaso, de “dar de ombros”. Somos levados por Fincher, vagarosamente, a um sentimento incômodo, de algo muito, mas muito errado, mas não sabemos – ou mesmo sequer podemos imaginar em nossas mentes inocentes – o que não demora a acontecer.

Quando finalmente John Doe aparece, por vontade própria (não revelarei o nome do ator que o faz aqui, pois ele nem nos créditos iniciais aparece justamente para que o segredo persista), ecoando, em seu nome, o anonimato da cidade, nós sabemos que o fim está próximo, mas que ainda está longe o suficiente para acreditarmos piamente em algum tipo de resolução que lave nossas almas. Mas John Doe é tudo, menos precipitado. É como se o roteiro nos desse esperança finalmente, somente para trucidá-la completamente ao final, fazendo-nos sair do transe inocente de Mills e Tracy e forçando-nos a nos “graduar” para a experiência nihilista de Somerset.

A sequência do passeio de carro de Somerset e Mills com John Doe no banco de trás. Esse é o momento muito provavelmente exigido pelo estúdio para evitar a proliferação de pontos de interrogação nas cabeças dos espectadores. É o momento em que tudo que, até então, estava nas entrelinhas, é escancarado de maneira didática, para inocentes como Mills entenderem.

Definitivamente, o roteiro poderia ter economizado nas explicações e mantido o ar misterioso até o derradeiro momento. Fincher fez o que pode para tornar a sequência interessante – e é só isso que ela é – pois não havia milagre que resolvesse esse problema. Mas houve uma troca, já que a versão do roteiro preferida do estúdio também não continha o final “da caixa”, mas Fincher, que recebera por engano o roteiro com o final que foi ao cinema – em um momento da vida em que estava desesperançoso em conseguir novos trabalhos em razão das tensões “alienígenas” do filme anterior – fez questão de desferir um soco no estômago de sua audiência. E ainda bem que assim o fez.

Seven é um daqueles filmes que qualquer um hesita em rever. É uma experiência tão enervante, tão destruidora, que qualquer pessoa saberá apreciá-la, mas preferirá apenas dizer que gostou, sem revisitar de verdade o material. E é por isso que essa obra de Fincher é tão poderosa.

O Primeiro Crime – A Gula

Os detetives vão investigar uma desagradável cena de crime onde um homem imensamente gordo foi amarrado e obrigado a comer até a morte. Atrás da geladeira está escrito em gordura, a palavra GULA. O primeiro crime condena o glutão à morte, pois o pecado da gula é traduzido pelo desejo incontrolável por comida. O obeso aparece como a figura que traz gravada em seu corpo a face do pecado capital.

O detetive Somerset lê uma citação de John Milton em Paraíso Perdido deixado pelo psicopata na cena do crime: “É longo e difícil o caminho que do Inferno leva à luz”.

Ao refletir sobre o crime diz: “Quando você quer matar alguém chega perto e atira. Não se arrisca 12 horas para matar, a não ser que o ato tenha um significado”. E esse não é um ato isolado e tem um significado, pois os assassinos em série são predadores que usam intimidação e violência para controlar suas vítimas e satisfazer suas próprias necessidades. Devido a sua ausência de empatia para com os outros, eles violam as normas sociais sem o menor senso de culpa ou arrependimento.

Tomando o DSM IV como base, encontramos que tanto o psicopata quanto o sociopata são classificados como casos de Transtorno de Personalidades Anti-sociais. Já na CID 10 consta o termo Personalidades Dissociais. De acordo com a Associação Americana de Psiquiatria este termo é utilizado para aqueles indivíduos de comportamento habitualmente anti-social, que se apresentam sempre inquietos, incapazes de extrair qualquer experiência dos fatos passados ou dos castigos recebidos. Geralmente são pessoas insensíveis e hedonistas, de imaturidade emocional muito acentuada, e com muita habilidade para racionalizar seu comportamento de modo a que pareça correto e sensato.

Os transtornos da personalidade são anomalias do desenvolvimento psicológico que perturbam a integração psíquica de forma contínua e persistente. De modo geral, a psicopatia representa uma falha no processo de formação da personalidade, cuja característica essencial do transtorno seria um padrão de desrespeito e violação dos direitos dos outros. A extrema crueldade e insensibilidade emocional, assim como o engodo e a manipulação maquiavélica das outras pessoas são aspectos centrais neste transtorno da Personalidade.

Sob o ponto de vista intelectual, ele não possui qualquer prejuízo de sua capacidade de discernimento entre o certo e o errado, porém, no plano da afetividade carece de emoções morais, sentimento de culpa, arrependimento, piedade ou vergonha. O psicopata não é um deficiente mental, ele possui uma boa fluência verbal e uma inteligência normal ou acima da média, geralmente é uma pessoa encantadora que possui uma excepcional capacidade de manipulação e sedução. Mentir, enganar e manipular são talentos naturais para o psicopata, sendo difícil desmascarar suas mentiras.

A indiferença emocional é o que o torna tão perigoso, pois lhe permite cometer os crimes mais hediondos sem remorso. O psicopata é uma pessoa sem valor moral e ético, sem consideração pelo outro, com total insensibilidade, mas plenamente responsável pelos seus atos.

O Segundo Crime – A Cobiça

Pouco tempo depois acontece o segundo crime. Um famoso advogado da cidade é violentamente assassinado, e a palavra COBIÇA está pintada na parede, com seu próprio sangue, mas as digitais são da próxima vítima.

A cobiça é um desejo descontrolado de adquirir riqueza material. A possibilidade de ter muitas coisas é o que seduz e dá prazer. O advogado é encontrado amarrado com a cabeça sobre seus livros, com o rosto e um pedaço de carne do quadril cortados. A posição sacrifical aparece como forma de remissão do pecado. Dessa forma, procedeu o advogado, soltando criminosos para obter dinheiro e poder, portanto, morre, oferecendo-se diante do próprio objeto de seus crimes: os livros. Assim sendo, a colocação de sua própria carne na balança da justiça sobre sua mesa serve para redimi-lo de seu pecado.

Somerset lê um trecho retirado da obra O Mercador de Veneza de William Shakespeare que o psicopata havia deixado: “Uma libra de carne. Nem mais, nem menos. Sem cartilagem, sem osso, só carne. Cumprida esta tarefa ele estaria livre”.

Uma mente que arquiteta lentamente seu projeto salvacionista e que no meio de sua desorganização caótica encontra toda a sua lógica. Seu desejo é punir sete pessoas segundo seus pecados capitais com vistas à absolvição. O que leva Somerset a dizer que: “Estes crimes são atrições forçadas. Ele deve ter deixado outra peça do quebra-cabeça. Coisas que nós deveríamos ver, mas não vemos. Coisas que vemos, mas não percebemos ou ocultamos, pois sempre pode haver algo que deixamos passar”.

Os detetives trabalham com afinco avançando passo a passo na investigação, tentando encontrar as peças certas para a construção desse quebra-cabeça. Somerset, após anos de experiência, percebe que se trata de um serial Killer, ou seja, um assassino seqüencial que comete crimes bárbaros, aparentemente sem motivo, executados a sangue frio e muitas vezes com planejamento cuidadoso. Porém, existem dois tipos de assassinos em série: os organizados, que planejam todos os aspectos de seus crimes, e os desorganizados, que são mais impulsivos e descuidados.

O termo Serial Killer — assassino em série — começou a ser usado na década de 1970, pelo agente do FBI e analista de perfil psicológico dos EUA Robert K. Ressler. Ele desenvolveu esta nomenclatura em substituição ao termo Stranger Killer — assassino desconhecido — e afirmou que 90 de 100 assassinos em série cometem seus crimes motivados por um impulso de caráter sexual sádico perverso.

Para o assassino em série, o crime é a própria fantasia, uma obra de arte, planejada e executada por ele na vida real. Seu prazer é visceral e a repetição continuada dos seus atos serve para reanimar suas fantasias, as quais permitem que ele se sinta extremamente vivo. Ele se excita em encontrar a presa, conquistá-la e capturá-la; podendo torturá-la, desmembrá-la, comer pedaços ou beber o sangue de suas vítimas. Seus crimes, geralmente, são cometidos com um intervalo de tempo e as vítimas possuem o mesmo perfil e quase sempre representam um símbolo. Estabelece com a vítima uma relação de intimidade e dominação, controlando a situação através da violência sexual e da tortura. O psicopata é uma pessoa opressora, insensível, sádica, narcisista e egoísta. A psicopatia é tida, por Otto Kemberg (1994) como uma grave patologia do superego ou como uma síndrome de Narcisismo Maligno. O psicopata é uma pessoa perversa, mantém o principio da realidade, mas carece de superego. Nesse sentido, ele poderia cometer seus crimes com total falta de escrúpulos e sem sentir culpa.

O Terceiro Crime – A Preguiça

No quarto dia de intensa investigação, acontece o terceiro crime evidenciando o pecado da PREGUIÇA. A preguiça é um pecado caracterizado pela pessoa que vive em estado de desleixo, de falta de esmero, em negligência e morosidade que a leva à inatividade acentuada. O homem encontrado era um ex-cliente do advogado anteriormente assassinado, que estava há um ano amarrado a uma cama, alimentado apenas através da aplicação de soros. Pouco a pouco, foram cortadas partes de sua carne, cuja mão decepada escreveu o pecado do advogado na parede. A vítima acabou comendo a própria língua.

Para compreender a lógica dos crimes, Somerset seleciona uma série de obras que versam sobre os sete pecados capitais, tais como: Os Contos da Cantuária de Geoffrey Chaucer, O Paraíso Perdido de John Milton e a Divina Comédia de Dante Alighieri, na intenção de saber como funciona a mente do psicopata para poder capturá-lo.

A referência à obra de Dante, especialmente ao purgatório, enquadra-se no contexto de SEVEN, pois a austeridade com que o psicopata impõe a expiação dos pecados a seus sentenciados é quase inenarrável. Os pecados eram usados nos sermões medievais como ensinamentos. Acreditava-se que para cada pecado cometido existia um castigo correspondente. Os detetives percebem que o psicopata está pregando e que esses crimes são os seus sermões. Ele está no lugar de Deus que lhe deu uma missão. Sem sentimentos de culpa ele constrói sua obra, dita sua lei, se identifica ao todo-poderoso, ele é o criador e os detetives são suas criaturas. Somerset afirma: “Ele é um sujeito metódico, preciso e, pior de tudo, paciente”.

Os detetives entendem que o psicopata não tem qualquer senso de ética ou de moral. Que ele é uma pessoa extremamente fria do ponto de vista emocional e não manifesta nenhum sentimento com relação às vitimas, sendo capaz de praticar os mais terríveis atos de violência. Somerset, por meio de sua genialidade, descobre através da marcação de alguns livros em bibliotecas públicas, uma lista de nomes que o leva até John Doe — nome dado aos cadáveres americanos que chegam aos necrotérios sem identificação. Os policiais entram no apartamento e encontram uma série de cadernos onde John Doe, interpretado por Kevin Spacey, se autodenomina um cumpridor das ordens de Deus para purificar o mundo. Sem nome, sem digitais, sem história, não se sabe de onde ele vem, nem quem ele é. Um Zé Ninguém que se torna alguém na medida em que tenta resgatar seu próprio ser no mundo através da punição dos 7 pecados capitais e da seqüência mórbida dos crimes cometidos por ele. Uma mente doentia, mas extremamente inteligente.

O Quarto Crime – A Luxúria

O quarto crime simboliza a LUXÚRIA que consiste no apego aos prazeres carnais, sexualidade extrema, lascívia e sensualidade. Num bordel, um homem é obrigado amarrar a si um falo cortante e penetrar uma prostituta até a morte pelo excesso de sexo.

Em perseguição ao psicopata, o detetive Mills quase foi morto. Não entendendo por que sua vida foi poupada, se sente atordoado e impotente com a seqüência de crimes. A senhora Mills não tem amigos, se sente só e por isso escolhe Somerset para confidenciar sua angústia. Ela está confusa porque está grávida e não sabe o que fazer com essa nova perspectiva de vida, uma vez que está deprimida por viver numa cidade que ela odeia.

Somerset encontra Mills e comenta que todos nós lidamos diariamente com as paixões mais primitivas, reprimindo-as, educando-as redirecionando-as para outros fins, ou seja, sublimamos nossas pulsões sexuais mais desregradas para não sermos aniquilados pelos nossos próprios desejos. Algumas pessoas, porém, fazem do caminho da destruição sua obra prima, permitindo que as desorganizações caóticas dessas paixões mais sórdidas governem insanamente seus atos.

Somerset tece seus comentários sobre a vida, explicando que é mais fácil se entregar às drogas que lidar com a vida, é mais fácil roubar que trabalhar para ter, é mais fácil bater numa criança que educá-la. Sua apatia é grande e ele comenta que o amor custa caro, requer esforço e trabalho. É preciso domesticar as pulsões agressivas. O detetive Mills não concorda com seus argumentos e acredita que ele é um pessimista. Somerset, diz que: “É impressionante ver um homem se alimentando de suas ilusões”. E agrega: “Estamos falando da vida, do cotidiano de milhares de pessoas sem rostos, que caminham incógnitos na multidão. O assassino é só um homem, não é o diabo”.

O psicopata busca constantemente seu próprio prazer e, quando mata, tem como objetivo final humilhar a vítima para reafirmar sua autoridade e sua auto-estima. A maioria dos homicidas tem um problema com origens perceptíveis no ambiente familiar. Alguns estudiosos acreditam que o ambiente no qual o indivíduo está inserido exerce fundamental influência no processo de construção de uma mentalidade homicida. Compreendem que a família funciona como elemento fundamental para a construção da subjetividade e da vida psíquica do sujeito, portanto a realidade do ambiente familiar é um determinante essencial para o desenvolvimento psíquico do ser humano.

Alguns pesquisadores perceberam que existem antecedentes pessoais e familiares que se reiteram no psicopata: a maioria passou por situações de humilhação na infância e na adolescência, sofrendo abusos emocionais, físicos e sexuais. São histórias de vidas problemáticas contendo violência familiar. Porém, nem toda família produz um Serial Killer, porque esses mesmos antecedentes se apresentam em outras pessoas que não chegam ao crime.

Freud em O mal estar na civilização (1930) pensa que o homem tem um impulso inato para o mal, para a agressividade, para a destruição e para a crueldade. Sua teoria é que o ódio está na base de todas as relações de amor e de afeição entre seres humanos. Muito antes o filósofo inglês Thomas Hobbes havia afirmado que o homem é o lobo do homem.

O Quinto Crime – A Vaidade

O quinto assassinato é contra o pecado da vaidade. Uma linda mulher tem seu rosto completamente desfigurado pelo psicopata. A modelo teve um telefone colado a uma mão e um frasco de remédios à outra. Diante disto, o psicopata lhe apresenta duas alternativas: dormir, adormecer a dor e morrer, ou pedir socorro, e ter a possibilidade de viver com cicatrizes para sempre. A mensagem deixada era: “Grite por socorro e viverá. Mas ficará desfigurada. Ou ponha um fim na sua própria dor”. Morrer a viver sem a beleza exterior, foi o caminho escolhido pela modelo.

Juntando peças, construindo o mosaico, Somerset banhado pelo desânimo diz: “Mesmo as melhores provas apenas levam a outras. Tantos corpos são enterrados sem serem vingados”.

O Sexto e o Sétimo Crime – A Inveja e a Ira

Depois de haver assassinado cinco pessoas, John Doe se entrega aos detetives, dizendo que já possui os dois corpos que faltam para completar a sua obra, que seriam o da inveja e o da ira, mortos em lugar que só ele sabia.

John Doe, conduz os dois detetives para fora da cidade, um local sob a luz do sol, onde estariam os corpos de suas últimas vitimas. No caminho ele revela aos detetives que só está fazendo o seu trabalho, ocasião em que afirma seu desejo pessoal em fazer cada pecado se voltar contra o pecador. Ele comenta que: “Todos nós vemos um pecado capital em cada esquina, em cada lar. Nós toleramos porque é uma coisa comum. Mas, isso acaba no momento em que estou dando o exemplo. Tudo o que estou fazendo vai ser decodificado, estudado e imitado por outros seguidores”.

John Doe justifica seus crimes dizendo que o mundo não se lembra ou não conhece os crimes capitais. Ele se vê como a Espada de Deus, que pune quem peca, tendo a necessidade de livrar o mundo do que julga imoral ou indigno. O psicopata comete atrocidades com suas vítimas pelo prazer de serem reconhecidos em todo o mundo.

Durante todo o tempo a morte está presente no filme: cenas noturnas, obscuridade, chuva, um clima de opressão paira no ar, mas ela nunca esteve tão presente quanto no momento em que no meio do nada, em pleno descampado, sob um sol abrasador chega uma camionete, pontualmente às sete horas, para entregar uma encomenda direcionada ao detetive Mills.

Somerset abre o pacote que continha a cabeça decepada da senhora Mills. O filme ganha um intenso tom de dramaticidade. Desesperado, ele gesticula e grita para que Mills não ouça e não entre na lógica de John Doe. Corre em sua direção e suplica para que ele não o mate, para que não se cumpra à vontade do psicopata. Somerset sabia que o melhor suplício a ser imposto ao psicopata era deixá-lo com vida, pois ao ser morto o mesmo completaria a sua missão e alcançaria a sua glória.

Astutamente John Doe revela ser a inveja. Confessa que seu sexto assassinato foi o da senhora Mills que estava grávida. E diz: “Eu também cometi um pecado capital. Tenho inveja de não enxergar o mundo como vocês”. Porém, neste instante nada há o que invejar do mundo do detetive Mills, pois ele está desabando. No mesmo momento em que lhe é revelada a paternidade ela lhe é retirada. Nada consegue aplacar a sua ira. Sua esposa está morta e ele não pôde fazer nada para impedir, não pôde prever o ato do assassino, mas o assassino pode pressentir o dele. John Doe diz: “É mais confortável para você me rotular como um insano, mas eu matei sua mulher e o bebê para que você assumisse a ira”.

Mills está atordoado pela dúvida, pois se matar John Doe assumirá ser a Ira e o brindará com a vitória, mas se não o matar perderá sua honra, por não vingar a morte de sua mulher. Então, como foi proferido pelo psicopata o ato final, o sétimo e último crime é cometido pelas mãos do detetive Mills, que não agüentando mais a inominável dor que sentia se torna a ira e mata John Doe, concluindo assim a obra deste último.

Como entender o final de Seven

No final de SEVEN, entender a mente do psicopata ainda é mergulhar num labirinto, lançar-se num jogo de enigmas. Até o presente momento as origens e o funcionamento psíquico das entranhas mental do psicopata serial killer ainda é algo indecifrável. Existe um desencadeante que, todavia é enigmático na causa da psicopatia. Dessa forma, há estudiosos que acreditam em distintas hipóteses: disfunção dos hormônios; dos genes; dos neurotransmissores; da atividade cerebral; proveniente de uma infância difícil vivida em lares desestruturados; inata à natureza humana. Diante de tantas proposições, parece mais adequado pensar numa combinação de numerosas causas operando em distintas proporções e em diferentes sujeitos.

No filme, porém, a última palavra fica a cargo do detetive Somerset quando cita uma frase de Ernest Hemingway: “O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele”. Ao que conclui: “Concordo com a segunda parte”. Somerset encarna a esperança.

Este site foi criado por Luís Eduardo Alló (fundador e editor), bacharel em Direito, mineiro de Muriaé – MG e que adora trabalhar na web.


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